Seção 2: Colega de Carteira (4)
Meng Xiaosu jamais conhecera a mãe.
Ouvira dizer, pelos vizinhos que tanto gostavam de murmurar, que ela partira de casa numa explosão de fúria, incapaz de suportar o pai, um homem entregue ao álcool ano após ano. Incapaz de suportar? Como poderia suportar? Meng Xiaosu pensava frequentemente: o lar já não possuía quase nada, mas aquele homem ainda assim gastava o pouco dinheiro que restava em jogos de azar e em bebida, embriagava-se todos os dias, e o mais aterrador era que a vida de agressões com bastões começara não se sabe em que idade—
Tudo teve início no dia em que, já sem forças para aguentar, ela murmurou: “Papai, por favor, eu lhe suplico, não beba mais—”.
A mão que ele estendia para pegar a garrafa vacilou por um instante; após um longo silêncio, ele apanhou uma garrafa vazia ao lado e encaminhou-se em sua direção.
“Traste inútil—agora até você quer dar ordens ao seu pai?!”
Ela chorava, acuada num canto, sem saber se o que lhe embaçava a vista era sangue, lágrimas ou ranho.
O princípio do pesadelo.
E assim os dias se sucediam, sem que jamais alguém interviesse—quem se importaria com os conflitos de uma casa como aquela?
Era apenas uma menina sem mãe, um fardo inútil—tal percepção terrível fazia com que ela se sentisse diferente dos outros, distinta daqueles autoconfiantes e de vida afortunada, e por isso, onde quer que fosse, habituara-se a andar curvada, com o olhar baixo.
Inferior, sim, mas também vaidosa—a idade avançava, e ela observava as colegas de classe, as jovens de boas famílias com seus belos vestidos.
Eram tão bonitos.
Ela também queria ser um pouco mais bonita.
Era um anseio sussurrado em seu íntimo, que não ousava confidenciar a ninguém, nem sequer pôr em prática—até que, ao passar por uma lojinha de roupas na rua, viu vestidos semelhantes.
Não compreendia de combinações, apenas sentia que, ao vestir algo novo, parecido com o das outras meninas, poderia se tornar mais bela.
Contudo, nem todos viam assim—tal ingenuidade, própria de seu ser, parecia ridícula.
“Ela está tentando imitar quem, com essa roupa? Céus, que horror!”
“Vem cá, vou te mostrar como ela anda—olha só, parece um macaco, não?”
“Ha ha ha ha ha, é de morrer de rir!”
…
E isso nem era o pior.
Ela nascera sem qualquer talento para o estudo, nada conseguia aprender; por alguma razão, também se perdia em devaneios, distraindo-se em plena aula.
Fantasiava ganhar na loteria um dia, para então fugir de casa com o dinheiro.
Sonhava que a mãe regressava de repente, dizendo-se arrependida por tê-la abandonado, prometendo compensar-lhe por tudo o que perdera.
Sonhava…
Tudo não passava de delírios; a cada gargalhada cruel, a dura realidade a arrastava de volta.
“Será que ela não tem um cheiro estranho? Cheiro de coisa mofada.”
“Família desfeita? Ai, que pena, não é?”
“Chegar viva até aqui já foi um esforço, hein…”
Um ambiente familiar deplorável, uma deficiência inata na percepção, colegas a rir e zombar, e o único parente a embriagar-se e espancá-la.
Que espécie de vida era aquela?
——
“Você sabe onde ela mora?” Jiang Li olhou para Bai Chen, que seguia adiante sem olhar para trás, um tanto surpreso.
“Já estive lá antes.” Bai Chen guiava-se pelas lembranças, a voz serena.
O brilho do piercing de Jiang Li oscilou enquanto sua curiosidade se acendia: “Foi fazer o quê?”
“O professor pediu para eu levar-lhe o boletim, que ela esqueceu na escola.”
Jiang Li recobrou a atenção: “Uau, essa garota é mesmo azarada, hein. Colega de mesa servindo de ajudante—aposto que ela apanha feio.”
Bai Chen hesitou: “Você sabe?”
Silenciou-se, talvez achando que não se expressara bem, e acrescentou: “Você sabe do problema familiar dela?”
“Analisei o mundo das cinzas, não é? Questões-chave e simples como essa são óbvias.” Jiang Li apontou para o PCI flutuando ao seu lado, riu baixo, “Mas, para mim… as zombarias dos colegas são ainda mais cruéis, sabe, aquela tal ‘maldade dos que têm a mesma idade’?”
“Não.” Bai Chen negou de imediato, tão rápido que Jiang Li não pôde deixar de erguer as sobrancelhas, “Chega a tal ponto que já se começa a duvidar do próprio direito de existir.”
Além disso…
Era, dentre todas as cenas que vira, aquela em que o ódio se fazia mais denso…
Diante da firmeza de Bai Chen, Jiang Li apenas ergueu as mãos, resignado, e continuou a acompanhá-la.
A residência de Meng Xiaosu situava-se num prédio antigo—oculto nos becos de uma metrópole moderna, onde, mesmo antes de se aproximar, já se sentia um frio úmido e fétido ao cruzar a viela.
“Então era mesmo aqui…” comentou Jiang Li, enquanto, em sua mão, surgia uma arma—aquela relíquia que portava desde o amanhecer.
Uma luz vermelha pulsava em sua superfície.
Jiang Li, excitado, assobiou; Bai Chen apenas lhe lançou um olhar: “Armas são proibidas em Xingguo.”
“Isto é uma arma, sim, mas de combate.” respondeu Jiang Li, imperturbável e descontraído, girando a arma na mão, “Como enfrentar o boss sem armamento, não é?”
Bai Chen entendeu em parte, calou-se, e já se preparava para subir as escadas quando Jiang Li estendeu o braço para impedi-la.
Ela se deteve, surpresa.
“Ahaha, como poderia deixar uma dama ir à frente numa hora dessas?” Jiang Li, raro momento de seriedade, mas ainda com um sorriso na voz.
Ao falar, não olhou para Bai Chen, e seguiu em frente.
Ela observou-o por instantes, em silêncio.
…
Ainda não haviam chegado à porta quando ouviram gritos e choros.
A voz furiosa de um homem, o pranto de Meng Xiaosu.
A arma na mão de Jiang Li brilhava cada vez mais intensamente.
“Espere.” Quando ele ia abrir a porta, Bai Chen segurou-o pelo casaco.
Ele voltou-se e olhou-a.
“Você ainda não me disse—do que se trata este jogo, afinal? Por que criar uma réplica baseada nas memórias de alguém?” Bai Chen fitou-o nos olhos; belos, mas sempre opacos, com uma pequena pinta de lágrima sob os cílios, o rosto todo de expressão apática.
Jiang Li a encarou, e o sorriso apenas se alargou—os olhos negros translúcidos, com um brilho de vidro.
“Usar o PCI faz com que as pessoas insiram enormes quantidades de dados cotidianos, queira-se ou não.” Jiang Li começou a explicar, estendendo a mão à maçaneta, “Vivemos numa era em que a tecnologia serve ilimitadamente ao indivíduo… mas, em contrapartida, tudo será armazenado pela IA em uma rede virtual.”
Mas isso não deveria significar que tais informações serviriam de base para um jogo, certo?
Mesmo que usasse pouco o PCI, e não fosse versada nesses assuntos, Bai Chen tinha um faro afiado para o que era ou não permitido.
Este jogo, afinal, estava longe de ser simples.
Bai Chen umedeceu os lábios.
Jiang Li riu, o som misturando-se ao clique da maçaneta que girava, e Bai Chen foi tomada por uma sensação estranha e indefinível.
Bang—!
Ainda imersa em seus pensamentos, não previra que, no instante em que a porta se abriu, Jiang Li já teria disparado a arma—
Por um breve instante, Bai Chen viu números azuis emergirem aos pés de Jiang Li—598.
Isto era…
…
Uma casa pequena.
Mobiliário simples, antigo, desprovido de vida.
Bai Chen viu a silhueta atingida fragmentar-se e depois sumir, enquanto uma atmosfera pesada tomava o recinto, até que uma lufada de vento trouxe, ao centro do quarto, um cristal de azul gélido.
“Tome, divirta-se.” Jiang Li aproximou-se e, com a arma, apontou para o cristal—
Bai Chen, surpresa, instintivamente estendeu as mãos para pegá-lo.
O cristal pousou-lhe nas mãos, emanando um frio cortante até os ossos.
【Colapso de Memórias—processamento concluído.】
【Nível D—recuperação completa.】
【Núcleos em posse: 1】
【Jogadora: Bai Chen, parabéns, sua posição subiu para 86.236】
Uma série de vozes igualmente frias ecoou; Bai Chen semicerrando os olhos, sentiu um incômodo difícil de nomear…
…
“Ah—!”
Ela ainda estava atordoada, quando o mundo em preto e branco se dissolveu de súbito, e o cenário ao redor readquiriu cor.
…Estava de volta ao corredor da escola.
Uma torrente de sons invadiu-lhe os ouvidos, zunindo; de súbito, a barulheira deixou-a tonta.
Logo percebeu que algo estava errado.
“Morreu alguém!”
A frase ressoou como um choque; ela ergueu os olhos para a multidão alarmada e murmurante—
“Quem foi?” não pôde evitar perguntar.
“Meng Xiaosu… foi a Meng Xiaosu!”